Uma eleição fragmentada. Confirmando-se as candidaturas de todos os postulantes ao Executivo municipal, o recifense terá à disposição nas urnas, ao menos uma dezena de opções para escolher o seu prefeito. A divisão é ampla e em todos os espectros. Da direita à esquerda, alianças especuladas e negociadas acabaram não se concretizando, mas até 16 de setembro, prazo final para as convenções, as cartas seguem na mesa.
A direita busca retomar a Prefeitura do Recife após cinco derrotas consecutivas desde 2000 (três para o PT e duas para o PSB). Nesse sentido, ao longo do ano ensaiou a unidade, mas, até aqui, sem sucesso. Partidos que chegaram a negociar alianças acabaram tomando caminho próprio, como o Podemos, com a Delegada Patrícia Domingos, o PSC, com Alberto Feitosa, o PRTB com Marco Aurélio, e o PSL, com Carlos Andrade Lima. Mendonça Filho (DEM), ao que tudo indica, formatará em torno da sua candidatura o maior bloco da oposição, com PTB, PSDB, DEM e PL, decisão que acabou alijando o deputado federal Daniel Coelho (Cidadania) da união oposicionista.
No entendimento do cientista político e professor da Faculdade Damas, Élton Gomes, apesar do grande número de candidatos oposicionistas na direita, a presença de um deles em um eventual segundo turno ainda é o cenário mais factível, ao menos no recorte do momento. "O voto da esquerda é mais concentrado. Quem vota em João ou Marília tem uma ideologia próxima, eles tendem a tirar votos um do outros. Já na direita, tende a prevalecer o pragmatismo. A tendência, levando em conta o comportamento do eleitor brasileiro, é que no momento chave o eleitor de direita veja quem tem mais chance de chegar ao segundo turno e dê o seu voto", destaca.
A cientista política e professora da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda (FACHO), Priscila Lapa, frisa que a dificuldade atual de formatação de um bloco de direita similar ao que a Frente Popular faz na esquerda é um reflexo dos últimos pleitos. Ela frisa que, como grande coordenador político do Estado, o ex-governador Eduardo Campos, falecido em 2014, conseguia alinhar partidos de diversas ideologias em um mesmo palanque, o que acabou minando a força de legendas tradicionais da direita. "O primeiro mandato de Geraldo Julio contou com o PSDB no palanque, por exemplo. Então nesse tempo que a esquerda vem ganhando as eleições, nem sempre é exatamente a esquerda, mas sim, uma grande coalizão com partidos de esquerda e siglas como o PSDB e famílias como os Ferreira", enfatiza Priscila.
Ela sublinha ainda que o discurso utilizado pela direita de "tirar a esquerda" do poder pode não ter o efeito esperado. "Se você leva em conta o projeto que está hoje na Prefeitura do Recife e no Governo do Estado com a Frente Popular, você encontra uma frente política que vai além de direita e esquerda e consegue penetração em segmentos que não tratam essa divisão. A direita insiste no discurso de nacionalizar as eleições, surfando na popularidade do presidente Bolsonaro, mas talvez esteja trazendo isso em demasia", avalia.
Inimigos íntimos
Na esquerda, aliados no Estado e no Recife, PSB e PT estarão em palanques distintos, após a decisão petista de candidatura própria, com a deputada federal Marília Arraes, endossada pelo próprio ex-presidente Lula, apesar da resistência de lideranças locais do PT, como o senador Humberto Costa, que atuou pela manutenção da sigla na Frente Popular, encabeçada pelos socialistas. Para o cientista político e professor da Universidade Católica de Pernambuco, Antônio Lucena, o projeto nacional do PT foi o ponto principal para que a sigla decidisse bancar Marília, mesmo sem a unidade local.
“Há a fadiga de material do próprio PSB que gerou alguns rachas, mas há também a tendência hegemonista do PT em querer disputar as eleições. Obviamente o diretório nacional petista está querendo conquistar uma grande quantidade de cidades, com a tentativa de ressurgimento do partido e da nacionalização do debate contra Bolsonaro”, explica Lucena, frisando que, ainda assim, o PSB possui uma candidatura extremamente forte com o deputado federal João Campos, alicerçada pelo trunfo de ter ao lado a máquina de apoio do Governo do Estado e da Prefeitura do Recife. O bônus, frisa Lucena, também vem acompanhado pelo “desgaste de muito tempo no poder”.
Os socialistas, entretanto, parecem que estão conseguindo contornar outra cisão que parecia próxima: a com o PDT. Os pedetistas adiaram a convenção que deveria ter ocorrido no início da semana e, ao que tudo indica, podem permanecer no palanque do PSB, em uma movimentação que repetiria o que vem ocorrendo entre as legendas em outras capitais e deve trazer repercussão em 2022.
O centro
Um dos reflexos da nacionalização da disputa é a colocação dos candidatos nos dois lados opostos do espectro político, o que acaba esvaziando o centro. Na análise do cientista político e professor da Faculdade Damas, Élton Gomes, a figura que poderia representar os ideais de centro nestas eleições seria o presidente estadual do Cidadania, o deputado federal Daniel Coelho. No entanto, sua candidatura foi rifada pelo grupo de Oposição que decidiu apostar em Mendonça Filho. Agora, a expectativa é de quem ganhará o apoio no parlamentar na corrida eleitoral de novembro. “Daniel Coelho tudo leva crer que não vai ter condições de se candidatar dessa vez e o apoio dele passará a ser importante para robustecer uma das candidaturas com aspecto ideológico de centro direita”, afirma o especialista.
Desde o ano passado atuando na articulação de uma unidade no campo oposicionista, Daniel não esconde a insatisfação em ver seu nome preterido como postulante do bloco da oposição. Em suas últimas declarações, tem frisado que a oposição tem dado preferência a projetos pessoais, buscando o recall de votos em 2022, em detrimento do objetivo, para ele, principal: acabar com a sequência de vitórias do PT/PSB. Diante disso, leva para o último momento a definição sobre a sua candidatura e sobre o palanque que pode subir. Diante da cisão recente com os partidos que se uniram em torno de Mendonça, é factível que Daniel encorpe a candidatura da Delegada Patrícia Domingos (Podemos) com o apoio do Cidadania.
Para o estrategista eleitoral Vítor Diniz, “as candidaturas estão se declarando mais à esquerda, mais à direita simplesmente por uma estratégia porque é mais fácil construir um discurso limpo e claro dessa forma”, entretanto, elas vão precisar atuar para atrair o eleitor de centro que ainda existe no Recife. “Sobretudo se a disputa for para o segundo turno, tanto um candidato mais à esquerda quanto um candidato mais à direita terão também que aplicar seu discurso ao eleitor de centro. Então, não dá para gente acreditar que só porque existe uma polarização nacional e existe uma certa polarização municipal o eleitor de centro vai deixar de existir. Ainda existe o eleitor de centro que não se identifica com a direita e nem com a esquerda e no primeiro turno é mais provável que a gente veja um discurso mais extremos, mas caso haja um segundo turno seja de direita x direita ou esquerda x esquerda, vai haver sim uma sinalização para o eleitor de centro”, prevê Diniz.
Fonte :Blog da Folha de PE.

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