segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Samir se eterniza

 

Ao chegar ao Recife nos anos 80, tangido pela seca do Pajeú no último pau de arara da canção de Luiz Gonzaga, uma voz na então Rádio Globo, em tom grave e profundamente encantadora, me despertou atenção. Dava conselhos aos jovens, batia nos maus políticos, reclamava dos gestores malfeitores e encerrava o programa com um quadro bem meloso para agradar as vovozinhas, um dos universos de ouvintes mais fiéis.

Seu nome era esquisito, mas com o tempo aprendi: Samir Abou Hana. Quando o conheci, tomei um susto: nariz de tucano, traços de turco e uma peruca super esquisita. Não imaginava que, dez anos depois, o libanês entrava na minha vida e o sertanejo na vida dele. O que nos uniu e criou um elo até a sua morte foi a campanha vitoriosa de Joaquim Francisco a governador - eu na coordenação da Imprensa, ele no guia eleitoral do rádio.

Na edição e produção do guia, Samir quebrou um paradigma: assessorado por pai e filho – os cabelos brancos do publicitário Antônio Carlos Vieira e a juventude aguerrida e criativa de André Gustavo Vieira. Em vida, o inquieto comunicador de massas foi responsável por uma geração de ouro do rádio, de gente que bota a boca no trombone e de talentos que produzem no anonimato. Eu fui conquistar Brasília; Samir ficou preso às raízes, fiel ao seu público incontável de ouvintes e admiradores.

O que nos uniu, mais uma vez, bem mais na frente, foi o rádio. Sequestrei Samir para comentar no Frente a Frente, programa que ancoro pela Rede Nordeste de Rádio há 14 anos. Ao longo desse tempo todo, sua voz foi a mais frequente, a mais ouvida, a mais comentada, a mais esperada, a mais aplaudida e mais cobrada pelos ouvintes. Falava de tudo, dos problemas da cidade às questões da politica nacional.

Falava também de música no quadro Sextou, que traz celebridades da MPB às sextas-feiras. Perfeccionista inveterado, Samir se prendia a detalhes da sua fala. Quando não gostava, pedia para gravar novamente. Já sem programa diário produzido e conduzido por ele, como fez a vida inteira, se deleitava no Frente a Frente, sua última tribuna em defesa do povo injustiçado na sua longa, rica e bem sucedida carreira.

Samir Abou Hana não está mais entre nós. Na última sexta-feira, já no cair da tarde, quando o sol se despede no horizonte sob o silêncio da mata e chama a lua para iluminar a noite, Deus o convocou para dar ternurinhas no céu. Foi a segunda voz que Deus deixa ouvintes órfãos no Frente a Frente. Antes dele, o criador do universo convocou Edvaldo Moraes, o maior bocão da cidade. Dá duro neles, Edvaldo Moraes, era o seu jargão. O jargão de Samir se perpetuou em ternuras.

Era a ternurinha que mandava para ouvintes ao final dos seus programas. Ternura é carinho, meiguice, a forma de Samir dizer que gostava ou admirava alguém. Samir era também, na radiofonia brasileira, o secretário da cidade, cargo vitalício dado pelo povo em retribuição a sua voz firme e corajosa em defesa dos problemas da gente humilde, dos que não têm voz, dos desamparados, dos humildes de coração, dos esquecidos pelos poderes públicos.

O que o homem vira quando vai embora daqui para a eternidade? Uns viram pó. Outros caem igual estrela do céu. Outros só viram a esquina. E tem aqueles que nunca vão embora. Ficam na nossa eterna lembrança. Samir é uma dessas criaturas. Samir não morreu. Quem é bom, generoso, alma limpa, nunca morre. O aperfeiçoamento prossegue em toda parte. A vida renova e eleva os seus quadros múltiplos, conduzindo-o, vitorioso e belo, à União suprema com a Divindade.

Vinicius de Moraes, o poetinha, disse que poderia suportar, sem dor, que morressem todos os seus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os seus amigos. Amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração, assim falava a canção da América, assim cantou Milton Nascimento. Há grandes homens que fazem com que todos se sintam pequenos. Mas o verdadeiro grande homem é aquele que faz com que todos se sintam grandes.

Samir era assim, uma dessas figuras abençoadas que Deus colocou no mundo só para fazer o bem. Pensador e filósofo chinês, Confúcio nos ensinou: Quando vires um homem bom, tenta imitá-lo. Samir é um exemplo para todos nós de boa imitação da vida, um homem perto da virtude: firme, paciente, simples, natural e tranquilo.

O adeus mais difícil – O prazer dos grandes homens consiste em poder tornar os outros felizes. Samir fez muita gente feliz: sua esposa Edvilma, seus filhos Paulo, Romero, Cristina e Verônica, seus oito netos e uma legião de gente que teve o privilégio da sua convivência, como eu. Difícil dizer adeus a Samir, mas fica o conforto de que a vida me ensinou a dizer adeus as pessoas que amo sem tirá-las do meu coração. Adeus, Samir! Fica comigo a certeza de que a cada chamado da vida, o coração deve estar pronto para a despedida e para novo começo, com ânimo e sem lamúrias. Aberto sempre para novos compromissos. Dentro de cada começar mora um encanto que nos dá forças e nos ajuda a viver.

A queda fatal – Nos últimos dias, Samir não estava muito ligado ao celular. Quando não atendia, o que era muito frequente, o encontrava pelo fone da esposa Edvilma, sua alma gêmea, doce e encantadora. Foi com ela que falei, no último dia 2, dia da queda que acabou roubando a sua vida de Samir uma semana depois. “Samir não pode atender agora, Magno. Estou levando-o ao hospital”, me contou, sem entrar em detalhes. Imediatamente, liguei para Paulo Abou Hana, meu amigo, filho do comunicador, que contou, extremamente preocupado, o que havia de fato ocorrido.

A morte – A partir daí, foram dias de angústia e aflição. Por cinco dias seguidos, Paulo Abou Hana trazia um boletim no Frente a Frente com o quadro do pai. Na queda, Samir caiu com a cabeça no chão, teve traumatismo craniano e ainda saiu com uma forte lesão na bacia e no fêmur. Foi intubado no hospital Hapvida, muito bem cuidado por sinal, segundo a família testemunha. Paulo chegou a dar boas notícias de reação do estado clínico do pai, mas sexta-feira passada veio o pior: Samir sofreu três paradas cardíacas seguidas, vindo a falecer. A notícia, dolorosa, com um filho chorando ao telefone, foi dada a mim pelo próprio Paulo.

O último Frente a Frente – A despedida de Samir no Frente a Frente foi no último dia 2, uma terça-feira. De Brasília, liguei para ele comentar o ingresso do presidente Bolsonaro no PL, o Partido Liberal. Depois, falou de carnaval – falava de todos os assuntos, era plural. Foi quando chamou de ideia de jerico a dos gestores estaduais e municipais que insistiam em promover o Carnaval em meio a uma nova cepa na pandemia. Sua última ternurinha, que mandava todos os dias ao final do programa, foi, segundo definiu, para os cabeças pensantes que já haviam cancelado o Carnaval.

Na telinha da Globo – Samir morreu profundamente desapontado ao seu “arquivamento” profissional imposto pela grande mídia estadual. A TV Globo ainda chegou a fazer um especial com a chamada de “Secretário da Cidade”, produzido, conduzido e editado pela competente Mônica Silveira. Lindo e emocionante, retratou as benfeitorias que o comunicador conseguiu para o Recife e sua paixão pela cidade. Que tal, Jô Mazzarolo, diretora-geral da Globo, a reapresentação do especial? Fica a sugestão.

CURTAS

Avenida – Extremamente abalado com a morte de Samir, o empresário José Carlos Pinga, responsável pelo recorde de shows de Roberto Carlos no Brasil, me ligou, ontem, de Salvador, para cobrar dos vereadores do Recife a proposição de um logradouro na cidade com o nome do comunicador. “A Avenida Norte poderia ser Avenida Samir Abou Hana”, sugeriu.

Homenagem – O Frente a Frente de hoje, com brilhante sonoplastia de Aldir Júnior, será dedicado a Samir Abou Hana. Gravado ontem, traz depoimentos de artistas nacionais, jornalistas que com ele trabalharam, amigos mais próximos e uma linda declaração sobre o legado do pai pelo advogado Paulo Abou Hana. Formado por 44 emissoras em Pernambuco, Alagoas e Bahia, o programa tem como cabeça de rede a Nova FM 98.7, no Recife. Mas pode ser ouvido pelo Blog clicando no botão Rádio, a partir das 18 horas. Imperdível!

Perguntar não ofende: Qual é o maior legado de Samir Abou Hana?

Fonte: Blog do Magno Martins.

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