Ao chegar ao Recife nos anos 80, tangido pela seca do Pajeú no último pau de arara da canção de Luiz Gonzaga, uma voz na então Rádio Globo, em tom grave e profundamente encantadora, me despertou atenção. Dava conselhos aos jovens, batia nos maus políticos, reclamava dos gestores malfeitores e encerrava o programa com um quadro bem meloso para agradar as vovozinhas, um dos universos de ouvintes mais fiéis.
Seu nome era esquisito, mas com o tempo aprendi: Samir Abou Hana. Quando o conheci, tomei um susto: nariz de tucano, traços de turco e uma peruca super esquisita. Não imaginava que, dez anos depois, o libanês entrava na minha vida e o sertanejo na vida dele. O que nos uniu e criou um elo até a sua morte foi a campanha vitoriosa de Joaquim Francisco a governador - eu na coordenação da Imprensa, ele no guia eleitoral do rádio.
Na edição e produção do guia, Samir quebrou um paradigma: assessorado por pai e filho – os cabelos brancos do publicitário Antônio Carlos Vieira e a juventude aguerrida e criativa de André Gustavo Vieira. Em vida, o inquieto comunicador de massas foi responsável por uma geração de ouro do rádio, de gente que bota a boca no trombone e de talentos que produzem no anonimato. Eu fui conquistar Brasília; Samir ficou preso às raízes, fiel ao seu público incontável de ouvintes e admiradores.
O que nos uniu, mais uma vez, bem mais na frente, foi o rádio. Sequestrei Samir para comentar no Frente a Frente, programa que ancoro pela Rede Nordeste de Rádio há 14 anos. Ao longo desse tempo todo, sua voz foi a mais frequente, a mais ouvida, a mais comentada, a mais esperada, a mais aplaudida e mais cobrada pelos ouvintes. Falava de tudo, dos problemas da cidade às questões da politica nacional.
Falava também de música no quadro Sextou, que traz celebridades da MPB às sextas-feiras. Perfeccionista inveterado, Samir se prendia a detalhes da sua fala. Quando não gostava, pedia para gravar novamente. Já sem programa diário produzido e conduzido por ele, como fez a vida inteira, se deleitava no Frente a Frente, sua última tribuna em defesa do povo injustiçado na sua longa, rica e bem sucedida carreira.
Samir Abou Hana não está mais entre nós. Na última sexta-feira, já no cair da tarde, quando o sol se despede no horizonte sob o silêncio da mata e chama a lua para iluminar a noite, Deus o convocou para dar ternurinhas no céu. Foi a segunda voz que Deus deixa ouvintes órfãos no Frente a Frente. Antes dele, o criador do universo convocou Edvaldo Moraes, o maior bocão da cidade. Dá duro neles, Edvaldo Moraes, era o seu jargão. O jargão de Samir se perpetuou em ternuras.
Era a ternurinha que mandava para ouvintes ao final dos seus programas. Ternura é carinho, meiguice, a forma de Samir dizer que gostava ou admirava alguém. Samir era também, na radiofonia brasileira, o secretário da cidade, cargo vitalício dado pelo povo em retribuição a sua voz firme e corajosa em defesa dos problemas da gente humilde, dos que não têm voz, dos desamparados, dos humildes de coração, dos esquecidos pelos poderes públicos.
O que o homem vira quando vai embora daqui para a eternidade? Uns viram pó. Outros caem igual estrela do céu. Outros só viram a esquina. E tem aqueles que nunca vão embora. Ficam na nossa eterna lembrança. Samir é uma dessas criaturas. Samir não morreu. Quem é bom, generoso, alma limpa, nunca morre. O aperfeiçoamento prossegue em toda parte. A vida renova e eleva os seus quadros múltiplos, conduzindo-o, vitorioso e belo, à União suprema com a Divindade.
Vinicius de Moraes, o poetinha, disse que poderia suportar, sem dor, que morressem todos os seus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os seus amigos. Amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração, assim falava a canção da América, assim cantou Milton Nascimento. Há grandes homens que fazem com que todos se sintam pequenos. Mas o verdadeiro grande homem é aquele que faz com que todos se sintam grandes.
Samir era assim, uma dessas figuras abençoadas que Deus colocou no mundo só para fazer o bem. Pensador e filósofo chinês, Confúcio nos ensinou: Quando vires um homem bom, tenta imitá-lo. Samir é um exemplo para todos nós de boa imitação da vida, um homem perto da virtude: firme, paciente, simples, natural e tranquilo.
O adeus mais difícil – O prazer dos grandes homens consiste em poder tornar os outros felizes. Samir fez muita gente feliz: sua esposa Edvilma, seus filhos Paulo, Romero, Cristina e Verônica, seus oito netos e uma legião de gente que teve o privilégio da sua convivência, como eu. Difícil dizer adeus a Samir, mas fica o conforto de que a vida me ensinou a dizer adeus as pessoas que amo sem tirá-las do meu coração. Adeus, Samir! Fica comigo a certeza de que a cada chamado da vida, o coração deve estar pronto para a despedida e para novo começo, com ânimo e sem lamúrias. Aberto sempre para novos compromissos. Dentro de cada começar mora um encanto que nos dá forças e nos ajuda a viver.
A queda fatal – Nos últimos dias, Samir não estava muito ligado ao celular. Quando não atendia, o que era muito frequente, o encontrava pelo fone da esposa Edvilma, sua alma gêmea, doce e encantadora. Foi com ela que falei, no último dia 2, dia da queda que acabou roubando a sua vida de Samir uma semana depois. “Samir não pode atender agora, Magno. Estou levando-o ao hospital”, me contou, sem entrar em detalhes. Imediatamente, liguei para Paulo Abou Hana, meu amigo, filho do comunicador, que contou, extremamente preocupado, o que havia de fato ocorrido.
A morte – A partir daí, foram dias de angústia e aflição. Por cinco dias seguidos, Paulo Abou Hana trazia um boletim no Frente a Frente com o quadro do pai. Na queda, Samir caiu com a cabeça no chão, teve traumatismo craniano e ainda saiu com uma forte lesão na bacia e no fêmur. Foi intubado no hospital Hapvida, muito bem cuidado por sinal, segundo a família testemunha. Paulo chegou a dar boas notícias de reação do estado clínico do pai, mas sexta-feira passada veio o pior: Samir sofreu três paradas cardíacas seguidas, vindo a falecer. A notícia, dolorosa, com um filho chorando ao telefone, foi dada a mim pelo próprio Paulo.
O último Frente a Frente – A despedida de Samir no Frente a Frente foi no último dia 2, uma terça-feira. De Brasília, liguei para ele comentar o ingresso do presidente Bolsonaro no PL, o Partido Liberal. Depois, falou de carnaval – falava de todos os assuntos, era plural. Foi quando chamou de ideia de jerico a dos gestores estaduais e municipais que insistiam em promover o Carnaval em meio a uma nova cepa na pandemia. Sua última ternurinha, que mandava todos os dias ao final do programa, foi, segundo definiu, para os cabeças pensantes que já haviam cancelado o Carnaval.
Na telinha da Globo – Samir morreu profundamente desapontado ao seu “arquivamento” profissional imposto pela grande mídia estadual. A TV Globo ainda chegou a fazer um especial com a chamada de “Secretário da Cidade”, produzido, conduzido e editado pela competente Mônica Silveira. Lindo e emocionante, retratou as benfeitorias que o comunicador conseguiu para o Recife e sua paixão pela cidade. Que tal, Jô Mazzarolo, diretora-geral da Globo, a reapresentação do especial? Fica a sugestão.
CURTAS
Avenida – Extremamente abalado com a morte de Samir, o empresário José Carlos Pinga, responsável pelo recorde de shows de Roberto Carlos no Brasil, me ligou, ontem, de Salvador, para cobrar dos vereadores do Recife a proposição de um logradouro na cidade com o nome do comunicador. “A Avenida Norte poderia ser Avenida Samir Abou Hana”, sugeriu.
Homenagem – O Frente a Frente de hoje, com brilhante sonoplastia de Aldir Júnior, será dedicado a Samir Abou Hana. Gravado ontem, traz depoimentos de artistas nacionais, jornalistas que com ele trabalharam, amigos mais próximos e uma linda declaração sobre o legado do pai pelo advogado Paulo Abou Hana. Formado por 44 emissoras em Pernambuco, Alagoas e Bahia, o programa tem como cabeça de rede a Nova FM 98.7, no Recife. Mas pode ser ouvido pelo Blog clicando no botão Rádio, a partir das 18 horas. Imperdível!
Perguntar não ofende: Qual é o maior legado de Samir Abou Hana?
Fonte: Blog do Magno Martins.
Nenhum comentário:
Postar um comentário