domingo, 11 de abril de 2021

Guerra diz que somou como vice e culpa Magalhães

 

Na sequência das entrevistas inéditas para o livro "A derrota não anunciada", de autoria deste escriba, reproduzido 21 anos após a histórica eleição de 2000 no Recife, o então senador Sérgio Guerra (PSDB) se defende de ter sido um dos responsáveis pela derrota de Roberto Magalhães (PFL). Nos bastidores, diziam que a troca da vice, substituíndo Raul Henry por ele, teria desagradado a gregos e troianos e servido de argumento para a militância do PMDB fazer corpo mole na campanha.

Guerra diz que sua presença na vice foi consequência natural das negociações para a entrada do PSDB na aliança e que Henry já havia comunicado a Roberto Magalhães que não queria mais compor a chapa. O senador fala dos bastidores também que levaram, um ano depois, Magalhães a se afastar da aliança jarbista pelo fato do filho André não ter sido escolhido secretário na equipe de Jarbas governador. Afirma que somou, ajudou a mobilizar mais estrutura para a campanha e que Magalhães perdeu por uma série de erros cometidos na campanha do primeiro turno. "Não nos preparamos para uma eventual eleição de dois turnos", avaliou. Para ele, o adversário que deixava Magalhães com os nervos à flor da pele não era João Paulo, para quem perdeu no segundo turno, mas Carlos Wilson. Confira! 

"Os que me culpam são invejosos”

Capítulo 15

Nem o próprio governador Jarbas Vasconcelos (MDB) acreditou que o hoje senador Sérgio Guerra – na época, um dos mais influentes parlamentares da bancada no Congresso – aceitasse compor a chapa de Roberto Magalhães como vice. Mas, no fundo, passava pela cabeça de Guerra que, reeleito prefeito, dois anos depois, Magalhães seria um candidato natural a governador e ele, eventualmente, assumiria a Prefeitura por dois anos, podendo ir à reeleição e garantir mais quatro anos de mandato. 

Coube ao senador a missão de desmontar, junto com o então presidente do PSDB, Luiz Piauhylino, a pré-candidatura de João Braga dentro da legenda tucana, o que poderia atrapalhar os planos de Magalhães logo no primeiro turno. Esse desmonte gerou consequências dentro da aliança, principalmente para o PMDB, que teve que abrir mão da vice, ocupada por Raul Henry.

A entrada de Guerra na chapa gerou uma grande ciumeira. Segmentos do PSDB, como o liderado pelo deputado Armando Monteiro Neto, hoje presidente da CNI – e na época ainda integrante da aliança - tiveram que engolir a seco.  O próprio Magalhães confessou que, com a saída de Henry, perdeu a euforia da militância do PMDB.

Dois anos depois, Roberto Magalhães e Sérgio Guerra, eleito senador da República, entraram em rota de colisão e hoje estão em palanques diferentes. A origem das divergências se deu quando Jarbas montou o secretariado para iniciar seu segundo mandato sem a presença de Carlos André, filho de Magalhães. Na briga, o PSDB ficou sem representante na Câmara, já que o deputado Luiz Piauhylino também saiu do partido e ingressou no PTB, em solidariedade a Magalhães. Colhi o depoimento de Sérgio Guerra em seu apartamento em Brasília, numa agitada quarta-feira, depois de um almoço regado a feijão verde, arroz, legumes e costeleta de porco.

Como o senhor avalia a derrota de Roberto Magalhães?

A campanha Roberto Magalhães estava estruturada sob uma base sólida. Seus principais fundamentos eram a força eleitoral do candidato, o apoio político estratégico do governador Jarbas e uma boa imagem administrativa.  Seus opositores, num primeiro momento, pareciam frágeis. Havia a expectativa de que Carlos Wilson pudesse somar setores diversos e se apresentar como candidato viável. Não havia expectativa de que João Paulo pudesse ser o primeiro adversário de Roberto Magalhães. Num primeiro momento, Carlos Wilson centrou sua campanha num discurso administrativo e num combate à personalidade do candidato Roberto.  Procurou passar a impressão de ser um candidato temperamental e autoritário. Não logrou êxito. Sua campanha não teve a consistência que ele esperava. Mas o fundamento do seu ataque à campanha de Roberto Magalhães manteve-se depois. Não através dele, mas do candidato do PT, uma pessoa de origem humilde, de vocabulário simples e com características de líder ´popular. Um candidato que foi favorecido imensamente pelos ventos do PT e pela tendência do recifense, dos pernambucanos e dos brasileiros de ficar naquele momento histórico do lado de algo que representasse a mudança. Foi esse o quadro que se foi desenhando e que ao longo da campanha permitiu que, apesar da força política e eleitoral de Roberto Magalhães e do grupo que o apoiava, esse grupo e essa força fossem derrotados.

O senhor também trabalhou com esse cenário na época?

Num primeiro momento, como acabei de afirmar, a noção de todos era a de que a eleição poderia se dar entre Roberto Magalhães e Carlos Wilson. João Paulo, dizia-se, apenas tratava de disputar uma eleição para ganhar conforto em eleições parlamentares. Todos nós, de uma ou outra maneira, trabalhamos, num primeiro momento, com esse cenário: de uma eleição entre Roberto Magalhães e Carlos Wilson Campos.

Ao longo da campanha, essa constatação foi se confirmando, no momento em que ele não ia aos debates, não é isso?

O fato de Roberto Magalhães não ter comparecido aos debates ainda no primeiro turno – foram três ou quatro – foi sem dúvida um erro. Fomos avisados – doutor Roberto de uma maneira especial – que o não comparecimento aos debates permitiria que por um bom período de tempo quatro ou cinco candidatos fizessem sucessivas acusações, denúncias e críticas ao candidato Roberto Magalhães. Ora, minutos de televisão - e não eram poucos – de combate incessante a um único candidato não poderiam favorecê-lo. Tenderiam a prejudicá-lo. Não tínhamos muita folga estatística que nos garantisse o direito de não participar dos debates. Houve a informação clara de que o não comparecimento de Roberto Magalhães nas discussões da televisão poderia remeter a eleição a um segundo turno. E que num segundo turno os resultados eram imprevisíveis.

Mas ele, com uma certa razão, dizia que seria trucidado, porque teria que enfrentar cinco candidatos.

Roberto Magalhães tinha razão quando previa que todos os candidatos se somariam contra ele. É preciso não esquecer que vários desses candidatos não eram verdadeiramente candidatos. Eram laranjas dos candidatos reais da então oposição. Ele estava certo nisso. Roberto Magalhães temia, por outro lado, uma radicalização de uma maneira especial com o candidato Carlos Wilson. E que essa radicalização o prejudicasse nas discussões. Ele tinha uma lógica que presidia sua opinião. Um confronto direto com Carlos Wilson podia perturbar a sua paciência, não permitindo o desenvolvimento de uma lógica tranquila na discussão. Mas foi um erro não ter comparecido aos debates, porque eu tenho uma convicção de que os próprios argumentos da nossa campanha eram muito mais fortes do que os argumentos das campanhas dos adversários.

O senhor chegou a defender a participação dele em debates?

Defendi todo o tempo. Sempre achei que haveria grandes chances de em debates nós nos saímos bem.

Para o senhor, ele se comportava de uma maneira arrogante? Nos bastidores, internamente?

Roberto Magalhães é uma personalidade especial. É um homem afirmativo. Em várias situações ele era harmonioso. Em outras, nem tanto. 

As campanhas, hoje, são fruto de um bom marketing. Seus marqueteiros não viam isso?

O marketing da campanha foi acertado. Mas quem acertou mais do que o nosso marketing foi a campanha do adversário. Que atuou de forma agressiva sobre o nosso candidato. Esse ataque produziu alguma instabilidade, demonstrada em episódios como, por exemplo, o da vaia da avenida Boa Viagem. Na medida em que os adversários conseguiram perturbar o nosso candidato, eles foram bem sucedidos na estratégia de dar alguma consistência à sua crítica e valorizar o aspecto da humildade e da conciliação que estavam espelhados – e legitimamente espelhados – na campanha de João Paulo.

Mas, ele se queixa de Lavareda, achando que ficou alijado das decisões do guia...

Respeito, mas tenho outra opinião.

Por quê?

Porque acho que Lavareda fez, durante todo o tempo, uma campanha que tinha três sinais. O primeiro sinal era afirmação administrativa de Roberto Magalhães, confirmando-o como um bom gestor público. O segundo sinal era sua identidade e sua união com Jarbas Vasconcelos e com a aliança que o apoiava. O terceiro sinal era a noção de que Roberto Magalhães era um homem tranquilo, capaz de enfrentar de forma absolutamente segura desafios que se apresentassem. Nosso candidato muitas vezes deixou-se levar pelas provocações dos adversários. E nisso errou.

Ele subestimou João Paulo?

De uma forma ou de outra, todos o subestimamos. Eu próprio. Mas o que nós devíamos ter feito, mais do que fizemos, era uma campanha que reproduzisse nosso candidato num ambiente de maior harmonia, solidariedade, tranquilidade. Isso, de uma ou outra forma, nos faltou.

Ele acha que o episódio de Boa Viagem não teve muita importância no contexto da derrota, mas sim a greve da PM.

O episódio de Boa Viagem teve importância na medida em que dava consistência a acusações feitas a Roberto Magalhães no plano da sua emoção. Aquele ato confirmou esse tipo de denúncia do ponto de vista público. Por isso não foi favorável.

Para o senhor, então, entre a arrogância, o episódio de Boa Viagem e a greve da Polícia, o que pesou mais na derrota?

Quando se perde uma eleição por poucos votos, muitos fatores podem ser alegados. E todos são, de uma ou outra forma, verdadeiros. É claro que a greve da polícia não ajudou. Como não ajudou o episódio de Boa Viagem. Como não colaborou o fato de não termos nos preparados para um resultado negativo no primeiro turno. Como não fomos capazes de demonstrar ao povo inteiro que o nosso candidato era um homem pacífico e construtivo. Vários fatos influíram numa derrota milimétrica. Que poderíamos ter evitado. 

Que tipos de fatos?

Nós não nos preparamos para o fato de que poderíamos não ganhar no primeiro turno.Tanto que não soubemos o que dizer na hora em que constatamos que a nossa vitória não foi suficiente para decidir a eleição ali. É bom recordar que em várias capitais brasileiras candidatos que lograram votações insuficientes no primeiro turno para ganhar a eleição deles foram capazes de ganhar no segundo turno. Não foi assim no nosso caso. Quando deixamos de ganhar no primeiro turno, passamos a impressão de que tínhamos perdido a eleição. Esse cenário foi tão drástico que logo a seguir tivemos uma queda enorme de participação nas pesquisas e João Paulo teve um crescimento exagerado também, porque não nos preparamos essa transição do primeiro para o segundo turno. Na medida em que não ganhamos no primeiro, todos ficaram com a impressão de que tínhamos perdido a eleição.

Magalhães disse que, 48 horas após o primeiro turno, João Paulo estava com 17 pontos na frente e só aí percebeu que havia chegado o momento de entrar na briga para valer.

Não deveríamos ter ficado suscetíveis às provocações dos adversários, porque tínhamos um candidato com mais base popular e eleitoral e tínhamos uma força maior. Era o caso de ouvir as forças e fazer uma campanha tranquila.

Ele diz, inclusive, que, na escolha de Raul Henry para vice, o PMDB faltou a ele. O PMDB fez o corpo mole e não participou da campanha. Com exceção do Governador, que ele elogia bastante.   

A minha opinião, é que, senão todos, muitos dos aliados do governador participaram fortemente, fizeram a sua campanha. Poderia lembrar o esforço de Cadoca, que coordenou a campanha no segundo turno. Ou de João Negromonte, que eu vi fazendo campanha para ele em todo lugar.

Ele alega que, na eleição de 96, o PMDB realmente vestiu a camisa, tirou o corpo fora em 2000 e que secretários não votaram nele.

É possível que alguns secretários de Jarbas não tenham votado em Roberto (O voto é secreto e pessoal). Mas as reuniões a que eu assisti, várias delas, da campanha de Roberto Magalhães, sempre tiveram o comparecimento de dezenas e dezenas de quadros da administração pública, de lideranças do PMDB que estavam no governo e se envolveram na campanha. Acho que houve energia e empenho na campanha.

A retirada de Raul Henry da vice foi pelo fato dele (Raul) ter alegado que queria passar uma temporada nos Estados Unidos?

Raul não foi vice porque disse que não queria ser. Se ele tivesse confirmado desde o começo a sua intenção de disputar a vice, seguramente teria sido o candidato de Roberto Magalhães, que sempre desejou isso.

A versão oficial é que Raul não quis ser. Procede ou ele foi rifado?

Ninguém rifou Raul. Havia o consenso de que ele era um bom candidato e tinha sido um bom vice. Mas havia um problema: uma candidatura pelo PSDB de um candidato que tinha votos e capacidade de campanha. Ele que remeteria de forma compulsória a eleição para o segundo turno. Então, houve um esforço para agregar o PSDB ao palanque de Roberto Magalhães, retirar esse candidato e dar mais consistência à aliança que o apoiava.

Existe uma versão de que o senhor aceitou ser vice, porque Magalhães eleito, dois anos depois, seria indicado candidato a governador e Jarbas ao Senado. Houve acordo nessa direção?

É provável que Roberto Magalhães, tendo sido reeleito na época, fosse o candidato natural à sucessão de Jarbas, já que Jarbas, como todo mundo sabe, não desejava disputar a sua reeleição. Sendo assim, era também provável que eu pudesse assumir a Prefeitura do Recife. Mas não houve nenhum acordo nesse sentido nem essa versão nunca foi colocada dessa forma por ninguém.

Por que o próprio governador não acreditava que o senhor aceitaria ser vice, deixando de ser deputado influente em Brasília para ser vice aqui?

Eu aceitei ser vice de Roberto Magalhães porque julguei que podia colaborar com o governo dele. Os problemas do Recife só podem ser resolvidos com ampla mobilização de recursos. E eu ia fazer isso.  O Recife não se equaciona com menos de R$ 150 milhões por ano de investimentos. Eu aceitei ser vice também porque era preciso de maneira definitiva incorporar o PSDB na aliança. E essa incorporação deu resultados.Tanto que dois anos depois me elegi senador. Eu aceitei também porque desejava participar de uma eleição majoritária.  A opinião do meu amigo Antônio Lavareda contribuiu muito para que eu aceitasse essa indicação...

Qual foi o argumento que ele usou?

O argumento de que era uma forma de eu me lançar no plano majoritário e também de incorporar de forma definitiva o PSDB na aliança.

Quer dizer, mesmo derrotado naquela chapa, o senhor acha que construiu sua candidatura para o Senado a partir dali?

Sem dúvida. Nossa candidatura para o Senado se consolidou naquela campanha majoritária da qual participamos, insiderindo o PSDB para que, dois anos depois, a aliança tivesse o seguinte contorno:  Jarbas, PMDB, governador: Marco Maciel, PFL, senador: Sérgio Guerra, PSDB, senador: Mendonça Filho, PFL, vice-governador.

E aqueles que atribuem a derrota de Roberto Magalhães à sua presença na vice?

São invejosos.  

E aonde é que o senhor somou na condição de vice?  

Somei agregando o PSDB.  Somei evitando que a eleição fosse compulsoriamente para o segundo turno. Somei ajudando na mobilização de recursos para a campanha.  Fiz o esforço que me foi permitido fazer. E não produzi nenhuma forma de dificuldade à campanha. Ao contrário.

E a sua presença na campanha?

O problema é que campanhas de prefeito normalmente não divulgam candidatos a vice. Eu apareci na televisão uma ou duas vezes. Eu me lembro que nos outdoors da campanha meu nome era quase invisível. Então, não era por aí que eu podia contribuir na campanha. Eu poderia contribuir na campanha na forma que eu contribuí: com a incorporação do PSDB, colaborando na mobilização de recursos de campanha e dando o máximo do meu esforço para que tudo pudesse se desenvolver de forma correta.    

O personagem Mané Chinês criou algum tipo de problema na campanha? Tirou Magalhães do sério em algum momento? Ele disse que não, que até se divertia...   

Mané Chinês teve um papel, mas era um personagem que no final confundiu a campanha de Carlos Wilson.  As virtudes do candidato ou seus eventuais defeitos eram menos relevantes do que a aparição pitoresca do chamado Mané Chinês.

O senhor acha que Roberto Magalhães foi vítima de uma grande armação na campanha, a começar pelo episódio de Brennand?

Não acredito em conspiração. Não acredito em teorias conspiratórias.

Qual foi o maior prejuízo dessa derrota da Aliança?

A História nos dá lições.  Os fatos devem ser instrutivos, de forma mais que possível informativos, para que novos padrões se definam e a evolução continue a se dar. A derrota no Recife foi instrutiva para a aliança. Tomamos consciência de que a nossa união, dois anos depois, era mais do que necessária. É claro que era melhor ter ganho, que a vitória de 2000 tivesse sido nossa. Mas o fato de não termos ganho nos ensinou bastante. E, sob a liderança de Jarbas, termos amadurecidos e vamos continuar assim.

O senhor chegou a ter algum atrito sério com Magalhães durante a campanha?

Não. Nunca tive atrito sério com o doutor Roberto Magalhães. Nem antes, nem durante, nem depois da campanha. Nada tenho de pessoal contra ele.

O senhor assumiu esse compromisso de fazer o filho dele secretário?

Não. Eu não nomeio secretários.

Mas o senhor acenou para ele com essa possibilidade, na condição do principal líder do PSDB?

Eu sempre afirmei que Jarbas Vasconcelos encontraria com Roberto Magalhães uma saída adequada para esse assunto.

Então, foi o governador que não quis?

O governador e o governo estabeleceram critérios para a organização do governo e, nesses critérios, Carlos André Magalhães não pôde ser enquadrado.

O senhor acha que ele foi injusto com o senhor?

Até o presente momento, tudo o que Roberto Magalhães afirmou publicamente é que teria deixado o partido por ter comigo divergência.

Fonte: Blog do Magno Martins.

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