
Porta-voz da insatisfação silenciosa dos prefeitos que não conseguem atender a demanda dos seus munícipes que sonham acordados com a imunização para se livrar do mal do século, a Covid-19, o prefeito de Araripina, Raimundo Pimentel (PSL), rasgou o verbo, ontem, diante do governador Paulo Câmara, numa reunião por videoconferência na discussão das medidas incluídas no pacote do lockdown.
Há uma desconfiança, segundo Pimentel, de privilégios na distribuição das cotas da vacina ao prefeito do Recife, João Campos (PSB). Enquanto na capital o calendário da vacinação já entrou na faixa etária dos 70 anos, nos grotões não se cumpriu sequer a primeira dose dos que estão no grupo dos acima de 80 anos. A vacina é comprada pelo Governo Federal, mas cabe ao Governo do Estado o papel da distribuição em cima de critérios.
O critério, segundo chegou ao conhecimento dos prefeitos, se deu com base no programa da campanha da vacina do idoso contra gripe, pneumonia pneumocócica, tétano, difteria, hepatite, febre amarela, tríplice viral, herpes zóster e meningite meningocócica. Isso, proporcionalmente à densidade demográfica. Mas não é o que dizem os prefeitos que não conseguem andar com a vacina contra a covid.
“Enquanto todos os outros municípios de Pernambuco estão recebendo vacinas para imunizar a população com 80 anos ou mais, o Recife já anunciou a vacinação de idosos com 70 anos. Quero saber o porquê disso. Não é justo”, desabafou o prefeito de Araripina, a capital do gesso, maior centro urbano e econômico do Sertão do Araripe, onde a pandemia faz estragos, lota hospitais e ceifa vidas.
A cobrança ríspida de Pimentel não soou bem aos ouvidos do governador nem tampouco do secretário de Saúde, André Longo. Embora num ambiente em que as autoridades não estavam presentes, frente a frente, mas online, o tempo esquentou e gerou desconforto. O que se diz nos bastidores é que o governador cedeu uma cota maior ao prefeito João Campos por ser aliado e criar o discurso, como ele já ensaia, de que Recife é a capital do Nordeste mais avançada na imunização contra a Covid-19.
Pimentel nem é o primeiro nem será o único a exigir tratamento igualitário ao Governo do Estado. Tão logo a campanha de vacinação teve início, o prefeito de Petrolina, Miguel Coelho (MDB), questionou o Estado quanto ao número de vacinas repassadas ao município na comparação com o Recife e chegou a ameaçar com queixa formal ao Ministério Público e ao Ministério da Saúde. O assunto, entretanto, morreu, até os prefeitos lerem, na coluna deste blog da última segunda-feira, que João Campos havia avançado bastante no calendário da vacinação e que Recife havia virado referência nacional. “Nem o governador nem tampouco o secretário de Saúde explica esse tratamento, que é desrespeitoso. A gente do Interior é igual a gente da capital”, atacou.
Por regiões – Ao longo de todo o dia de ontem, o governador esteve à frente de reuniões por videoconferência com prefeitos das quatro macrorregiões de Pernambuco para discutir as principais preocupações e demandas de cada cidade em relação ao enfrentamento da Covid-19. Ele aproveitou a oportunidade para reforçar aos gestores municipais a importância da colaboração de todos no cumprimento das medidas restritivas que começam a vigorar a partir de amanhã em razão da quarentena mais rígida decretada pelo Governo do Estado para conter o avanço do novo coronavírus.
Cobrança ignorada – Ao final da maratona, Paulo Câmara evitou comentar o desencontro com o prefeito de Araripina, Raimundo Pimentel. Preferiu se deter ao assunto de forma mais genérico. “Essas reuniões com os prefeitos são fundamentais para que a quarentena tenha sucesso. Durante todo o dia conversamos e apresentamos um quadro atual e real do sistema de Saúde do Estado. Também ouvimos as demandas e sugestões e definimos estratégias conjuntas para colocar as medidas do decreto em execução. Nossa ideia é voltar o mais rapidamente possível à normalidade e, para isso, dependemos da adesão dos municípios e das pessoas”, disse o governador.
Novo recorde – Pernambuco teve, ontem, 2.482 novos casos e 60 mortes pela Covid-19, o maior número de óbitos diários confirmados desde o início de 2021. Com esses pacientes e falecimentos, o Estado passou a totalizar 320.931 casos e 11.471 mortes de pessoas. No mesmo dia de ontem, o Estado também bateu recorde na média móvel de casos, com 1.565 confirmações. O número, o maior desde o início da pandemia, é 28% maior do que há exatas duas semanas. O Estado alcançou a média móvel de 35 mortes – o maior número desde 16 de agosto de 2020.
Onda crescente – O maior registro de mortes em um dia feito em 2021 havia sido do dia 12 de março, quando o estado confirmou em 24 horas 49 mortes pela doença. O recorde foi de 140 óbitos contabilizados em um único boletim, ocorrido em 27 de maio de 2020. De acordo com a Secretaria de Saúde, 177 dos 2.482 diagnósticos confirmados, ontem, foram de Síndrome Respiratória Aguda Grave. Outros 2.305 pacientes diagnosticados com a forma leve da doença. Dessa forma, o Estado passou a totalizar 33.804 casos graves e 287.127 casos leves da doença. Os registros começaram a ser feitos em 12 de março de 2020.
Pacheco quer Refis – O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), defendeu, ontem, um novo Refis, programa especial que permite a regularização de dívidas tributárias com benefícios, descontos e parcelamento, como uma medida fiscal imediata para ajudar as empresas a superarem a pandemia de covid-19. “O Refis vem como um alento importante para poder se ter essa regularização tributária. É bem verdade que não se pode acostumar o contribuinte com modalidades de parcelamento, mas toda essa ortodoxia deve ser deixada de lado nesse momento de pandemia e as exceções devem ser contempladas sim”, afirmou.
CURTAS
INTERLOCUÇÃO – O governador Wellington Dias (PT), do Piauí, será o emissário do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas conversas com o PSDB e outros partidos do centro. A estratégia do PT é encontrar "um lugar para Lula na crise sanitária". A intenção é que o petista se junte a outros ex-presidentes - como Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Michel Temer (MDB) – na busca por uma influência internacional que possa ajudar o País a conseguir vacinas e insumos para a produção de imunizantes.
NORDESTE – Dias e Lula conversaram na quinta-feira passada. O aliado do Piauí é o coordenador do Consórcio de governadores do Nordeste, que anunciou, no dia seguinte, um acordo com o fabricante russo da vacina Sputnik para a compra de 39 milhões de doses. A inclusão de Lula nos diálogos sobre a crise teria dois objetivos: mantê-lo em evidência, mas fora do noticiário sobre seus problemas judiciais, e reforçar a estratégia de buscar estabelecer pontes com o centro.
Perguntar não ofende: Por que Geraldo Júlio não assume que assinou o pacote de restrições do lockdown que irritou o PIB pernambucano?
Fonte: Blog do Magno
Martins.
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