A anulação dos julgamentos do presidente Lula no âmbito da Lava Jata pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin, e o consequente retorno da sua elegibilidade, caíram como uma bomba na política brasileira na última semana. Um fato que não muda apenas a estratégia petista para 2020, muda completamente o xadrez eleitoral em todos os espectros políticos. A volta do ex-presidente ao jogo impacta estratégias imediatas dos atores políticos, sobretudo do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido).
No longo discurso da última quarta-feira, Lula ainda não se colocou como candidato, apesar da retórica sinalizar que isso deve ocorrer em breve. O ex-presidente teceu duras críticas a Bolsonaro, chamou o presidente da República de “fanfarrão” e terraplanista, lamentou a gestão econômica do governo e classificou como “imbecil” decisões dele sobre a pandemia. O petista ainda insinuou o envolvimento de Bolsonaro com milicianos, acenou para o mercado, além de demonstrar disposição a dialogar com o campo político além da esquerda. "Lula se colocou como antagonista a Bolsonaro. Existe a tese do ‘bolsopetismo’, que os extremos se unem, então nos meandros do discurso, Lula quis mostrar que há uma distinção muito clara entre ele e Bolsonaro", avalia o cientista político Antônio Lucena, professor da Universidade Católica de Pernambuco.
Para a cientista política e professora da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda (Facho), Priscila Lapa, em seu discurso, Lula já mirou a eleição e buscou atingir uma fatia mais pobre da população, significativa nas urnas, e que sente fortemente na pele os efeitos da pandemia e da forma como Bolsonaro tem gerido a crise sanitária e econômica. "Lula sabe onde o sapato aperta para esse segmento da sociedade, tem identificação histórica, teve durante seus mandatos. Talvez seja essa parcela da população que mais sustenta um pensamento positivo sobre os governos de Lula, que é uma população que se sente vulnerável agora. Uma parte migrou para Bolsonaro (em 2018), mas certamente é um segmento que não quer saber se a bolsa subiu, ou o preço do barril de petróleo, é um segmento que perde poder de compra”, avalia.
Respostas
Após o que foi dito por Lula, Bolsonaro agiu em dois caminhos distintos. No que foi interpretado como uma resposta às críticas à gestão da pandemia, em seu primeiro evento pós-discurso do petista, Bolsonaro e todo o primeiro escalão apareceram de máscara, fato inusitado no governo. A família Bolsonaro também passou a disseminar nas redes sociais que a principal arma para combater o vírus é a vacina, a despeito da estratégia tardia para comprar os imunizantes. Em live realizada na quinta-feira, Bolsonaro, colocou um globo terrestre como resposta ao “terraplanismo” apontado por Lula. E até mesmo o Zé Gotinha, personagem comum nas campanhas de vacinação no Brasil ao longo de décadas e que teve o seu “paradeiro” questionado por Lula, voltou à tona nas redes sociais de Eduardo Bolsonaro, mas agora portando uma bandeira do Brasil e um misto de metralhadora e seringa.
A aparente ponderação do presidente, agora pró-vacina, no entanto, veio junto com um novo episódio de alusão à ditadura, algo que era comum em seus posicionamentos até o primeiro semestre do ano passado, quando estava em profunda crise com as instituições, sobretudo o STF e a Câmara dos Deputados. Em live na última quinta, Bolsonaro disse que “é fácil impor uma ditadura no Brasil”. "Repito, eu faço o que o povo quiser. E digo mais: sou o chefe supremo das Forças Armadas. As Forças Armadas acompanham o que está acontecendo. As críticas em cima de generais, não é o momento de fazer isso”, disse o presidente, em referência à crítica de Lula ao general Villas-Bôas, em seu discurso, por conta mensagem que o militar manifestou nas redes sociais em 2018, antes do julgamento do habeas corpus do ex-presidente. Na ocasião, Villas-Bôas disse que o Exército repudiava a impunidade e pedia respeito à Constituição.
O presidente também atacou a estratégias mais radicais de isolamento social, adotadas por governadores e prefeitos, como o lockdown, para a contenção da disseminação do vírus da Covid-19, e insinuou que problemas sérios relacionados à violência estão para explodir no Brasil. "A pessoa com fome perde a razão, topa tudo. Estamos segurando o Brasil. Estou antevendo um problema sério no Brasil, não quero falar que problemas são esses porque não quero que digam que estou estimulando a violência, mas teremos problemas sérios pela frente".
Estratégia de sobrevivência
Apesar das crises (sanitária, econômica e política), dos mais de 270 mil mortos pela pandemia da covid-19 e da iminência do colapso da Saúde em todo o País, o Chefe do Executivo Federal vivia um cenário marcado por uma oposição difusa, sem um grande opositor ao seu governo. A elegibilidade de Lula tem potencial de mudar tudo isso, já que há a tendência da agora provável candidatura do líder petista fazer o “centro”, que aparecia com uma profusão de nomes cotados para o pleito de 2022, se aglutinar para tornar-se viável.
O governador de São Paulo, João Dória (PSDB) e postulante à Presidência já se posicionou nesse sentido. Disse que o “centro democrático” precisa ter “juízo e bom sendo” para construir uma proposta para o Brasil e “identificar um candidato que seja competitivo, que possa disputar com duas personalidades (Lula e Bolsonaro) com forte densidade política e eleitoral”. O ex-ministro da Saúde de Bolsonaro, Luiz Henrique Mandetta (DEM), também ventilado como possível candidato, foi no mesmo sentido, afirmando que “Agora, a unidade do centro se torna imperativa” e que “Não dá para esperar o fim do ano para decidir quem é o nome capaz de unir o centro”.
Também cotado para a disputa, o apresentador Luciano Huck foi mais um a se manifestar, dizendo que “figurinha repetida não completa álbum”, em referência a Lula. Já o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) usou um tom de lamento para afirmar que “ou há um basta aos desatinos do presidente da República, ou dará Lula nas eleições. Basta comparar e ver o vazio de lideranças”, frisou.
Para Arthur Leandro, a mudança de estratégia do Centro é fundamental, mas pode esbarrar no próprio Lula que, em seu discurso, já fez acenos para bloco, inclusive sinalizando disposição a dialogar com o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), que por meio das redes sociais, fez uma comparação elogiosa ao petista e crítica a Bolsonaro. "Lula já se colocou como uma figura de Centro, já acenou às forças de segurança pública, falou da importância das instituições. Embora tenha atacado a Força Tarefa da Lava Jato, Lula foi elogioso com o Judiciário, com o Ministério Público Federal, com o mercado, com o empresariado. Ele se colocou como alternativa de governo viável. Isso certamente reposiciona todos os atores”. Para Leandro, além de repensar a viabilidade de candidaturas próprias para o ano que vem, alguns partidos podem, numa ainda eventual candidatura de Lula, estar no palanque do líder petista “desde o início”.
Fonte :Por João Vitor Pascoal.
Blog da Folha de PE.

Nenhum comentário:
Postar um comentário