Mais antigo em circulação na América Latina, com quase 200 anos de história, o Diário de Pernambuco não foi o primeiro nem será o último a antecipar a migração do impresso para o online em decorrência da pandemia do coronavírus. Como o papel é vetor da transmissão do vírus da Covid-19, ninguém se arrisca mais a ler notícias impressas com cheiro de tinta. E isso não é exclusividade do Brasil, atinge o mundo inteiro.
Os jornais da chamada mídia tradicional enfrentam tempos bicudos, impostos pela redução ou suspensão das edições impressas, cortes de salário e demissões em massa. A pandemia de coronavírus atingiu em cheio a saúde financeira de empresas de mídia da América Latina num momento em que o trabalho jornalístico é essencial para a sociedade. No Brasil, uma medida provisória do Governo autoriza empresas a reduzir salários e jornadas de trabalho em até 70% por até 90 dias. O objetivo é aliviar as obrigações das empresas e manter postos de trabalho durante a crise.
O jornal O Estado de S. Paulo (Estadão), um dos três mais importantes do País, promoveu um corte de 25% nos salários e jornadas de trabalho a partir deste mês. O plano prevê garantia de estabilidade de seis meses e plano de saúde até o fim do ano. A empresa, responsável também pela Agência Estado, teria perdido 50% da receita com anúncios impressos e eventos, segundo o diretor de redação, João Caminoto, explicou a cerca de 250 jornalistas que participaram de uma conferência via Hangout.
De acordo com jornalistas que participaram da reunião virtual, a proposta é fechar um acordo coletivo através do sindicato dos jornalistas. Caso não haja acordo, a empresa vai propor acordos individuais, sem garantia de estabilidade para os que não aceitarem, informou o Brazil Journal. No Rio de Janeiro, o jornal O Dia anunciou a redução de 25% dos salários e da jornada de trabalho para todos os seus funcionários da redação e das áreas administrativas já relativa ao mês de março.
Num comunicado enviado aos jornalistas e reproduzido pelo site Comunique-se, a presidência do jornal informa que “a fatia restante será quitada tão logo o cenário de contingenciamento nacional se desfaça.” Posteriormente, um novo comunicado informa também a redução de jornada a partir de março. Já em Minas Gerais, o segundo estado mais populoso do Brasil, o jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte, propôs redução salarial a seus jornalistas. Já O Tempo, também da capital do Estado, demitiu 24 jornalistas, segundo o Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais.
Na Argentina, a editora Publiexpress demitiu 93 pessoas e encerrou a publicação das revistas Pronto, Diário de la Salud, Saber Vivir e Buenas Ideas. Apenas a edição digital da Pronto, que é especializada em celebridades, foi mantida. O Foro de Jornalismo Argentino (FOPEA, em espanhol) se solidarizou com os profissionais e alertou que “estamos diante de uma crise de meios que hoje se vê acelerada em consequência da pandemia de COVID-19, que ameaça ser catastrófica para o setor”.
Na Colômbia, o Grupo Semana demitiu cerca de 250 empregados, entre jornalistas e trabalhadores das áreas administrativa e comercial devido ao impacto financeiro causado pela crise do coronavírus. Além disso, decidiu suspender por 60 dias a publicação das revistas Arcadia, SoHo, Jet-set, Semana Educación e Semana Sostenible. “Parece-me que a empresa envia internamente mensagens bastante contraditórias aos seus trabalhadores, porque imediatamente eles me levaram à gerência de recursos humanos e o que me apresentaram foi uma carta informando sobre a rescisão do meu contrato de trabalho, sem nenhum compromisso da parte deles de retornamos ao trabalho para a organização após a crise”, disse ao programa de rádio Mañanas BLU Sara Malagón, ex-editora da revista cultural Arcadia, sobre o possível retorno da revista quando a situação no mundo voltar ao normal.
No comunicado em que anuncia a suspensão das revistas, o Grupo Semana afirma que as revistas Semana e Diñero continuarão sendo publicadas normalmente. “Sem dúvida, o impacto econômico criado pelo fenômeno do coronavírus e as restrições logísticas tornam obrigatório projetar reestruturações dessa natureza. Um desafio como esse é simultaneamente uma oportunidade de inovar e procurar maneiras de melhorar nossos produtos”, informou o Grupo em nota.
Jornalistas em pânico – A Federação de Jornalistas da América Latina e do Caribe (Fepalc, em espanhol) condenou a demissão de jornalistas durante a pandemia. A organização registra que jornalistas de Peru, Panamá, Equador e Paraguai também estão sofrendo os efeitos da redução da atividade econômica, ficando impossibilitados de seguir trabalhando por falta de recursos. A Associação Nacional de Jornalistas do Peru e o Sindicato de Jornalistas do Paraguai pediram aos governos nacionais garantia de sustentabilidade para os trabalhadores atingidos pela crise, segundo a Fepalc.
Globo fecha revistas – Na América Latina, várias outras organizações jornalísticas vêm adotando medidas de restrição ou suspensão das edições impressas de suas revistas e jornais. A Editora Globo, que faz parte do maior grupo de mídia do Brasil, parou de publicar seis revistas mensais, que estarão disponíveis apenas em formato digital. Já os jornais diários O Globo e Extra, além da revista semanal Época, seguem sendo imprensas. No Chile, La Discusión de Chillán deixou de circular pela primeira vez em papel desde 1939, o quando um terremoto de magnitude 8,3 na escala Richter que atingiu a região e causou a morte 24 mil pessoas.
México perde jornal – No México, o Grupo Crónica anunciou o fim de suas edições impressas diante da emergência causada pelo coronavírus. Assim, desde 1º de abril não são mais publicados os jornais La Crónica de Hoy, Crónica Hidalgo e Crónica de Jalisco. Na Bolívia, El Deber, de Santa Cruz de La Sierra, tirou das ruas a versão em papel do diário já no dia 24 de março. A circulação só volta ao normal depois da quarentena. Já Página Siete, de La Paz, interrompeu as edições dominicais, mas segue saindo nos outros dias da semana.
CURTAS
MAIS MORTES – Pernambuco confirmou, ontem, mais 70 mortes e 541 novos pacientes com o novo coronavírus. Com isso, desde março, o Estado contabilizou 14.309 confirmações e 1.157 mortes por Covid-19, segundo a Secretaria de Saúde. Das novas confirmações, 276 se enquadram como Síndrome Respiratória Aguda Grave (Srag) e 265 são casos leves. Ao todo, o Estado registrou 7.644 pacientes considerados graves com a doença e 6.665 leves. O uso de máscaras passa a ser obrigatório a partir do próximo sábado. O decreto estadual com a ampliação da obrigatoriedade do uso foi publicado no Diário Oficial de ontem, assim como o detalhamento das medidas referentes à quarentena no Recife e outras quatro cidades.
PERDA DE SALÁRIO – Mais de 7 milhões de brasileiros já tiveram redução de jornada e salário ou suspensão do contrato de trabalho. De acordo com dados do Ministério da Economia, até as 11h desta terça-feira (12), o programa criado para minimizar os impactos da pandemia de coronavírus e preservar empregos formais já reunia um total de 7,19 milhões de acordos fechados entre empresas e trabalhadores. Esse número representa 20,7% dos empregados com carteira de trabalho no setor privado. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Mensal (PNAD Contínua), do IBGE, o País tinha no trimestre encerrado em março 34.736 trabalhadores formais, incluindo os domésticos. Ou seja, 1 em cada 5 trabalhadores formais já teve corte de salário ou contrato suspenso no País.
LIVE COM ALCYMAR – Meu convidado para a live de amanhã, às 19 horas, pelo Instagram do meu blog, é o cantor e compositor Alcymar Monteiro, que vai tratar do drama enfrentado pela classe artística no País, fortemente atingida pela pandemia do coronavírus. O forrozeiro, que fez uma live fantástica, sábado passado, gravou, recentemente, um duro áudio criticando o deputado Felipe Carreras (PSB) pela tentativa de mexer num vespeiro: as regras de cobrança de taxas de direitos autorais. Só não o chamou de arroz doce. Para acompanhar a live você tem que seguir o Instagram do blog pelo endereço @blogdomagno.
Perguntar não ofende: Algum setor da economia será capaz de resistir ao diabólico Covid-19?
Fonte: Blog do Magno Martins.
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